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"Mas o tempo, o tempo caleja a sensibilidade."
Machado de Assis


 

Evoluímos na história porque aprendemos a colaborar. O espírito colaborativo foi a poderosa força que manteve a nossa espécie vencendo todos os desafios que enfrentou até agora. De todas as estratégias utilizadas pelo ser humano para sobreviver nesse planeta insalubre só existe uma que realmente fez toda a diferença: a educação. Sim, passar adiante os conhecimentos acumulados em cada geração nos ajudou a evoluir, a seguir em frente. E por que fazemos isso? Por que investir tempo e dinheiro treinando jovens e crianças para os desafios do seu próprio tempo?

 

 

 

Teoricamente, se não vamos viver eternamente, por que se preocupar com o que vai acontecer em um futuro no qual não estaremos presentes. Por que não permitir que nossos filhos resolvam seus problemas sozinhos, sem a nossa intervenção?

 

Claro que essas questões soam estúpidas, eu não duvido disso. Mas, podem servir para colocar as coisas em perspectiva.

 

Em um passado distante, milhões de anos atrás, nossos antepassados passavam seus dias apenas catando frutas e comendo pequenos animais, aqui e ali, onde conseguiam encontrar. Hoje, abrimos um aplicativo, deslizamos o dedo numa tela brilhante e uma refeição quentinha chega em nossa porta, minutos depois. Por que isso aconteceu? Por que as coisas nunca são as mesmas na história humana? Por que estamos sempre tentando fazer as coisas de uma forma diferente?

 

Evoluímos mais nas últimas décadas do que em toda a história humana. Por que a expansão de nossa ciência se acelera cada vez mais?

 

Parece que o tempo está distorcido. Parece que ele escorre por entre os dedos. Ele não se parece mais com aquilo que foi um dia, quando parecia que estávamos no controle. No passado distante, nossos avós comiam, se protegiam, viajavam e dormiam. Hoje, os conceitos sobre comida, segurança, transporte e sono são tão ambíguos quanto a nossa capacidade de lidar com o tempo.

 

Desde o primeiro ato colaborativo, quando um de nossos avós entendeu que se duas pessoas fizessem uma coisa juntas seria mais fácil, mais rápido e mais seguro, a vida em sociedade nunca mais foi a mesma. Criamos uma espécie de campo de distorção da realidade, no qual poderíamos imaginar uma ideia e, depois, achar as pessoas certas para realizá-la. Distorcer o real tornou-se a nossa especialidade. Dar asas à imaginação nos tornava essencialmente humanos, nos distanciando dos outros animais. Quanto mais fértil fosse o solo criativo, mais gente envolvida seria preciso para tornar os frutos das novas ideias reais.

 

Nos tornamos viciados em ter ideias. E o prazer maior era sempre realizá-las junto com outras pessoas. Nossas obras se tornaram tão grandes que, às vezes, o tempo de uma geração não era suficiente para terminá-las. Então, foi preciso armazenar informações e preparar nossos descendentes para seguir em frente, suprindo-os com tudo o que fosse necessário para que o processo criativo da tribo, da cidade, do reino ou de um país inteiro não cessasse.

 

Nossa imaginação é tão poderosa que transcendo tempo e espaço. Mesmo presos em uma minúscula brecha temporal, que dura em média 60 ou 70 anos, conseguimos burlar as regras e provar que, de muitas maneiras, estamos presentes no tempo e que ele talvez não seja maior ou mais poderoso que as nossas ideias. Essa fagulha que mantém o coração humano em um contínuo incêndio, o qual nunca para de gerar inquietações, é o segredo que nos mantém sempre em movimento. Criando novas formas de vencer todos os desafios que a vida nos impõe.

 

A arte da colaboração humana criou tantas possibilidades, e durante a nossa história trabalhamos uns para os outros, pagamos uns aos outros e deixamos nossos filhos para dar continuidade a essa tradição. Mas, de alguma forma, essa premissa está em xeque.

 

A forma como as coisas aconteciam na sociedade humana começou a mudar, há cerca de 200 anos, quando as extensões de nossos corpos tornaram-se cada vez mais metálicas. Da máquina a vapor passando pelo automóvel até os Smartfones, e nesse ínterim a informação que armazenávamos para suprir nossas necessidades passou a ser lida, compreendida e aplicada na realidade de maneiras cada vez mais inéditas. A passividade dos grossos volumes de papel que continham tudo o que precisávamos saber para entender quem somos e para onde poderíamos ir, foi substituída por cabos de fibra ótica, espalhados por servidores digitais em todo o planeta. O conhecimento é ativo e onipresente. O conhecimento não espera que você o busque, ele está "vivo" e nos observa incessantemente, em busca de entender quem somos e está pronto a dizer para onde devemos ir.

 

A colaboração que criou a nossa cultura e os empregos que mantiveram milhões de pessoas engajadas em suas carreias, durante milênios, agora está sendo posta em perspectiva. O trabalho como o conhecemos até bem pouco tempo, não se veste e nem caminha mais da mesma forma. Todos, jovens e velhos, estão olhando para a realidade sem entender bem o que está acontecendo. Muitos empregos estão desaparecendo, e muitos outros surgem por consequência. Nem todos dão conta de atender à demanda de qualificações que as novas funções exigem. E mesmo quando o fazem, logo são pressionadas e se atualizar, cinco minutos depois.

 

Queremos exterminar o esforço físico. Não o apreciamos. Tudo o que fazemos é para evitá-lo ao máximo. Adoramos o conforto. Olhe para tudo o que criamos. Queremos viver mais e sentir o prazer no seu apogeu, sem limites. Claro que esse é o sentimento que nos coloca em movimento. Trabalhamos 5 dias para descansar 2, trabalhamos 11 meses para descansar 1. Fazemos qualquer coisa para comprar o paraíso. Infelizmente, o paraíso que estamos criando é digital e tem, de certa forma, vontade própria, e parece não ter lugar para todos em seus domínios. Criamos coisas para nos aliviar a dor de existir, mas nos esquecemos de nos preparar para seus efeitos colaterais.

 

"The machines are coming for the high-wage, high-skill jobs as well"
Martin Ford

 

Nosso medo de um inevitável fim nos uniu para criar um mundo cada vez melhor e mais confortável. Agora, esse tal mundo está cobrando a conta e não sabemos como quitar a dívida. Um nível épico de criatividade está sendo exigido, mas é algo completamente diferente do que fizemos até hoje. Agora, o desafio será conseguir reconfigurar as nossas mentes para que sejamos capazes de iluminar a nossa sensibilidade, para que a beleza nos toque muito mais que o prazer de não fazer nada, já que um algorítimo vai resolver tudo por nós, desde que possamos pagar por isso. Essa nova sociedade digital precisa de seres humanos menos pragmáticos, e mais conectados com seus sentidos. Isso é ser sensível. Temos tantas conveniências que acabamos esquecendo como nossos corpos funcionam.

 

Para Domenico De Masi, em seu livro Criatividade e Grupos Criativos, buscamos delegar todo e qualquer esforço às máquinas e liberar completamente o ser humano de todo e qualquer trabalho chato, repetitivo, tedioso e cansativo, “assim como concentrar todas as energias em fins elevados como a autorrealização, através da criatividade, da introspecção, das atividades lúdicas, da amizade, do amor, do convívio e da beleza”, afirma.

 

Vamos continuar limitados, pelo menos por enquanto, a ter uma vida média de 80/90 anos, para os mais sortudos. Vamos continuar educando nossas crianças, é claro, mas nesse admirável mundo novo serão necessários novos sentidos capazes de perceber camadas invisíveis, onde nenhum tipo de sensor eletrônico poderia penetrar. Esse ser criativo, sensível ao toque da vida, vai surfar de forma esplêndida e mostrar como as coisas podem ser, aprendendo muito mais com pessoas reais, dividindo experiências, apreciando o valor do erro, porque consegue ver e sentir a essência de ser humano. E isso, inevitavelmente, vai deixar muitos algorítimos com a pulga atrás da orelha.

 

 

 

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