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POR QUE NÃO SOU CRIATIVO?

June 17, 2019

Capítulo I: Ansiedade é combustível

 

Criatividade: o terror diário de qualquer pessoa, não importa o que faça para viver.

 

A ansiedade que era um tabu até recentemente, um item de uso exclusivo de celebridades, agora faz parte do cotidiano de qualquer ser humano, não importa se mora no morro ou no condomínio, no templo ou no alto de uma montanha.

 

A ansiedade é o mal do século.

 

 

 

Estamos ansiosos por não ter um emprego, e não é muito diferente para quem está bem na profissão, e nem mesmo para os donos de seus próprios negócios. A imprevisibilidade matou a forma como lidamos com o tempo. Ter ou não ter, eis a questão. O pânico, a sensação de angústia e a ansiedade estão o tempo todo mordendo nossos calcanhares, arranhando o chão, puxando nossos cabelos, sussurrando em nossos ouvidos, roubando nosso ar, quando é difícil até engolir em falso. Todos somos vítimas dessa epidemia. A ansiedade ataca silenciosa, e, quando menos se espera, combatê-la da forma errada pode dar ainda mais força para seus ataques.

 

“Puxa vida! Esse cara disse que ia falar de criatividade e veio com esse papo de ansiedade”, você deve estar aí pensando. Ansioso(a)!

 

Eu trabalho com criatividade. Sim, pago minhas contas criando ideias, diariamente, para meus clientes. Mas, nos últimos anos o poço vinha secando, dia após dia, de onde eu só conseguia tirar uma água salobre, amarga. Sério! E isso se refletia em minha produção, inegavelmente. Sem mencionar que as sombras se alastraram para os relacionamentos profissionais, familiares e sociais. Estava tão ansioso que mal conseguia pensar direito, reinventar conceitos e resolver problemas com novas perspectivas. Sentia a mente árida e uma raiva gratuita pairando no ar, acompanhada de um cheiro forte, inflamável, sufocante, que queimava os olhos e ardia no nariz. Um estado de alerta constante, pronto para fugir ou atacar.

 

Foi aí que percebi que a criatividade não é um “dom”, mas um esforço. Uma disposição. Dia desses comentei com uma amiga que a mente humana parece um rio, e quando a gente resolve represar nossos pensamentos, cedo ou tarde, o volume d’água acaba dá seu jeito e encontra seu caminho. O ser humano é inquieto por natureza. Por mais introvertido ou tímida que sejamos, existe um oceano inflamável lá dentro, à espera de um milagre; uma fagulha que seja capaz de dar algum significado a todo aquele volume de combustível.

 

A revolução dos empregos está aí, fervilhando. Esqueça a tão sonhada “carteira assinada”, o orgulho de nossos pais e avós. Daqui para frente, cada vez mais, teremos uma legislação que cumprirá a profecia sobre o fim dos empregos como os conhecemos, e tudo o que há ao seu redor: salário, fundo de garantia, férias, PIS, 13o salário, aposentadoria, etc., etc., etc. Quem não ficaria ansioso vivendo em um cenário como esse? Imerso nessa atmosfera cheia a incertezas que se acumulam, sem nenhuma luz no fim de um túnel que nós mesmos estamos construindo.

 

Quem não é “criativo” precisa ser. Mas, como? E, quem “é”, já não sabe mais como manter as pessoas encantadas, para sustentar a audiência que paga seus salários. O dinheiro se move onde a atenção das pessoas está. Isso é um fato.

 

Empregos com atividades repetitivas são masmorras para onde ninguém quer ir, até porque já existem muitos algoritmos prontos para resolver a maior parte desses problemas. Atividades repetitivas deixam as pessoas entediadas, e, consequentemente, ansiosas por algum tipo de distração. O emprego dos sonhos hoje, é se tornar programador de jogos. Ganha-se fortunas jogando e criando jogos para alimentar a rotina dessa moçada ávida por experiências sensoriais. Haja criatividade para suprir essa colossal demanda.

 

Não importa o país em que você vive, há um déficit histórico sobre a criatividade humana. Nunca houve uma necessidade tão grande para esse talento que, até agora, supõe-se ser uma exclusividade dos homo sapiens. Mas, afinal, por que eu não sou criativo?

 

A lógica mecanicista da revolução industrial nos assombrou por tempo demais. Ainda hoje, as salas de aula, mesmo conectadas à Internet, ainda usam carteiras enfileiradas, tendo uma pessoa à frente dos alunos com a autoridade de ensiná-los. (Sério?) Todas as áreas do mundo evoluíram, migraram para patamares nunca antes imaginados, mas a escola ainda está lá “cansada com suas meias três quartos/rezando baixo pelos cantos/por ser uma menina má”. Avaliar alunos sob uma perspectiva única, usando métodos padronizados, muitas vezes antiquados, dando-lhes notas numa escala numérica, desconsiderando todas as suas capacidades e habilidades, sejam físicas, psíquicas, cognitivas e emocionais, é um crime sem nome. Muitos Mozart’s, Einstein’s e Marie’s Curie’s foram condenados à invisibilidade e morte intelectual por não se deixarem formatar por métodos baseados em repetição.

 

As escolas do mundo todo, até agora, criaram especialistas, gente que lida muito mal com o novo, e se perdem completamente em situações disruptivas. Com imensas dificuldades em se adaptar, pois não desenvolveram bem a habilidade de auto aprendizado, da busca e pesquisa incessantes; aquela curiosidade infantil que foi queimada na fornalha de uma inquisição que insistia em fazer sempre as mesmas perguntas.

 

Se você é um profissional de áreas chamadas “criativas” deve receber uma carga gigante de demandas, todos os dias, para resolver problemas, criar ideias e salvar a cabeça de diretores, produtores, gerentes, CEO’s, etc. De onde tirar inspiração para tamanha exigência? E se você não é desse mundo chamado “criativo”, ou seja, se pertence ao universo dos mortais quebradores de pedra, sabe que a sua picareta está prestes a se tornar um aplicativo, muito em breve, e que deverá dar um jeito de se atualizar ou irá morrer, literalmente.

 

Mais ansiedade.

 

Se nossas escolas não sabem como nos ajudar, e se nossos empregos, criativos ou não, nos sugam todo o sangue, o suor e as lágrimas, como encontrar alguma criatividade que nos salve a vida e paguem nossos boletos?

 

Não somos criativos porque vivemos em uma sociedade que sistematizou um método que visa apenas à manutenção de mecanismos. Escolas que primam por autonomia, que incentivam seus alunos ao pensamento crítico, blá, blá, blá, são uma modinha moderna. Por que não fizemos isso bem antes? Por que demoramos tanto a reconhecer esse brilhantismo natural do ser humano, que só se revela em ambientes livres de barreiras e burocracias?

 

Nossas escolas mais parecem presídios, com muros altos, cercas elétricas e sistema de vigilância por câmeras. Quem não se sentiria ansioso e com medo da vida vivendo assim?

 

Não somos criativos porque nossa cultura ainda não vê um valor genuíno no pensamento selvagem, cru, instintivo. Preferimos coisas padronizadas e previsíveis. De preferência, mensuráveis. A história já provou que matamos a maioria das pessoas que tiveram ideias absurdas, mas que hoje governam nossas vidas. O estranho assusta, sim, mas muda o rumo das coisas. Criatividade exige liberdade, e isso foge ao velho conceito de que trabalho é igual a esforço físico e horas trabalhadas, em um espaço físico determinado, cumprindo regras preestabelecidas. Duro dilema para uma sociedade recalcada na pura meritocracia.

 

Agora, com a corda no pescoço e um mundo à beira do Apocalipse, com nossos rios e mares poluídos, e o aquecimento global bagunçando nosso clima, a falta de empregos endêmica e mais bilhões de bocas para alimentar, a ficha cai e o terror toma conta de todos, principalmente de empresas que não querem perder o controle do mundo. Elas buscam enlouquecidas por mentes criativas. Mas onde elas estão?  

 

Afinal, está cada vez mais difícil contratar pessoas capacitadas. E não falo apenas de diplomas e currículos recheados de cursos e especializações. Na verdade, falo de seres humanos preparados para lidar com a adversidade, a disrupção (mudanças bruscas), e nesse ínterim lidar bem com as próprias emoções, se reinventando como pessoa, sendo capaz de aprender com suas derrotas e, principalmente, dividir suas vitórias com as pessoas que conheceram pelo caminho que o levou até lá.

 

Criatividade não é um dom, mas a eterna necessidade humana de superar seus próprios limites. E estamos vivendo um momento delicado, que exige níveis estratosféricos de nossa capacidade criativa. De onde ela virá? Do mesmo lugar de sempre: dos nossos medos. Estamos ansiosos porque tememos os efeitos desse novo mundo que não conseguimos explicar direito. As coisas estão acontecendo muito rápido e nos atropelando. Estamos em pleno voo e consertando o avião. A velocidade cria angústia. O medo nos arrepia, nos deixa com raiva por não saber o que fazer, mas é esse mesmo terror que pode nos mover para frente, validando aquele instinto selvagem que nos trouxe até aqui: o senso de sobrevivência.

 

A ansiedade não é algo tão ruim assim. Um pai com raiva e sem grana pode roubar, mas também pode criar uma ideia nova para alimentar seus filhos, dando-lhes muito mais que alimento, senão um exemplo sustentável de como se “ganha” a vida. Uma diretora de arte com prazo estourado pode plagiar aquele material que “ninguém vai perceber” ou sentar a bunda na cadeira, melhor, tirar ela de lá e partir em busca de uma solução fora de sua zona de conforto, acreditando que até a dona Maria do cafezinho pode lhe dar uma “luz”, e salvar uma campanha inteira.

 

Seja você um contador, uma professora de história, um zelador ou o presidente de uma multinacional, não interessa, a sua criatividade não depende do diploma que recebeu ou dos limites impostos pela sua função. A sua criatividade vai sempre depender da sua coragem de ir além do que se espera de você. E isso estará sempre escondido nos detalhes. Passamos os olhos por cima de tudo, observando apenas o contexto geral. Mas, as respostas estarão sempre bem ali, no cantinho onde quase ninguém olha. A história da criatividade é a própria história humana. A inquietude do ser humano é o que tempera a nossa evolução. Uma geração tem medo de algo, mas a seguinte resolve enfrenta-lo, e, assim, dar um passo adiante.

 

O mundo está ansioso, tremendo, de pupilas dilatadas. As palmas das mãos frias e um frio na barriga que nunca dá sossego. Paga-se caro por nossa atenção, e, por isso mesmo, ela não está plena em lugar algum e em nenhum tempo. Eis o motivo de tanta angústia. Os novos donos do mundo serão pessoas que vão hackear suas mentes para conseguir dar a devida atenção às coisas certas, no tempo devido e para as pessoas corretas, e pelos motivos adequados. Desenvolver uma postura seletiva sadia, que me ajude a fazer melhores escolhas, prestando atenção aos detalhes, será a chave para livrar nosso mundo de tanta aflição.

 

Seremos sempre ansiosos? Claro! Essa é a nossa benção e a nossa maldição. A diferença está em que eu dedico minha atenção. Use a sua ansiedade a seu favor. Caso contrário, ela vai fazer apenas consumir a sua mente até não sobrar mais nada. Ela virá, inevitavelmente, como uma onda no mar, sempre seguida por outra. Você pode surfar ou levar um “caixote”. A decisão é sua. Rápido, pois lá vem outra...

 

Seja criativo! Basta prestar mais atenção em si mesmo(a). Você vai se surpreender!

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