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A ARTE DE SEDUZIR O GOOGLE

January 7, 2019

“Ocorre que a enfermeira energética, que não hesitava em revelar cada mínimo detalhe, desde os hormônios até as glândulas, apesar disso pulou um detalhe marginal: ela não nos disse, nem mesmo sugeriu, que esses procedimentos complexos traziam, pelo menos ocasionalmente, algum prazer.”

AMÓS OZ

 

Imagine qual seria a velocidade do pregresso na área de inteligência artificial num mundo em que um joão-ninguém qualquer tivesse a mesma capacidade intelectual de Alan Turing ou John von Neumann, e onde milhões de pessoas fossem mais inteligentes do que qualquer gênio do passado. Essa é só uma fotografia hipotética criada por Nick Bostrom, em seu livro Superinteligência: caminhos, perigos e estratégias para um novo mundo.

 

Imagine podermos nos conectar com máquinas, fazer download de novas informações ou o upload de nossos pensamentos. Parece loucura, mas já é uma realidade. O que foi assunto de cinema já está nas mesas de diretorias nas maiores empresas de tecnologia do mundo. As quais, inclusive, também contrataram roteiristas de Hollywood, pois acreditam que o futuro precisa ser inventado, e não mais simplesmente adaptado.

 

 

 

O algoritmo do Google é um buraco negro, sugando tudo o que pode para se tornar o mais eficaz que puder. Quem ainda acredita que o buscador está ali apenas para nos ajudar a encontrar coisas, engana-se amargamente. A inteligência artificial por trás dessa ferramenta deseja dominar o mundo. Talvez não como escritores e roteiristas imaginam, mas para entender como as pessoas realmente são. Cada uma de nossas perguntas, solicitações e pesquisas deixam pistas de como se desenvolvem nossas vontades, escolhas, desejos e aspirações, e como lidamos com elas.

 

Para Kevin Kelly, no futuro, o mundo fluirá. Para ele, o conhecimento comandará os átomos. “Pode parecer exagero dizer que a maioria dos aparatos sólidos e fixos do mundo manufaturado se transformará em forças etéreas, mas a verdade é que o imaterial vai, sim, sobrepujar o tangível”, afirma o autor do livro Inevitável. Nossas experiências diárias já nos dão um discreto vislumbre do que está prestes a acontecer.

 

A tecnologia já não pode mais ser ignorada. As eleições americanas e, mais recentemente, as brasileiras, são um grito ensurdecedor sobre o poder da Internet nas mãos das pessoas. Não há um controle absoluto sobre as massas conectadas, e também não há controle sobre quem poderá assumir esse mar de gente.

 

Esse momento da história só é possível exatamente como o experimentamos por causa do que foi criado até aqui. Sacamos o celular, deslizamos os dedos pela tela e, em poucos instantes, temos um veículo nos esperando na porta do prédio. Aplicativos como o Uber incorporaram o poderoso conceito que a Internet nos trouxe: mobilidade sem fronteiras. Tudo precisa estar em movimento, absolutamente, tudo. Comida, bebida, diversão e arte…

 

Ignorar a tecnologia, hoje, é um ato suicida. As novidades, que sempre foram exclusivamente um privilégio dos jovens, agora estão, inevitável e inexoravelmente, nas mãos de todos aqueles que não querem morrer na praia, não importa a idade que tenham. Vovós e vovôs estão mais antenados do que nunca. Boa parte deles entendeu que a vida pode ser prolongada, e a tecnologia ajudou a quebrar tabus e a esticar a diversão um pouco mais. Uma boa notícia, provando que o poder da conexão entre as pessoas desfigura qualquer cultura, por mais enrugada e sisuda que seja.

 

Quando vi a expressão “Uber Yourself Before You Get Kodaked” pela primeira vez, confesso que demorei um pouco para cair a ficha. Claro que ela tem muitas e múltiplas interpretações, mas o feijão com arroz que me subiu à mente foi que neste inquieto momento é preciso mais do que ter boas ideias; precisamos “levá-las” aos lugares certos. Precisamos ser o principal veículo de execução de nossos empreendimentos. A Kodak inventou as primeiras câmeras digitais, mas, de alguma forma, não soube o que fazer com aquele magnífico projeto. Atirou no próprio pé. Perdeu o bonde da história. Faliu bem no meio do boom tecnológico. Não viu o valor exponencial de sua própria criação.

 

Sacadas geniais conectam ideias e pessoas. Uma câmera digital sozinha não faz verão; mas, uma câmera digital e um telefone celular juntos, mudam a história e criam milhares de aplicativos, milhões de fãs e bilhões em lucro. Tenho certeza que você conhece bem essa história, principalmente se estiver lendo esse texto na tela de seu amado IPhone. Em tempos de mudanças bruscas, se a gente apenas espera as mudanças, acaba sendo engolido pelas ondas digitais que assolam o mundo. Se não formos relevantes, de alguma forma, os algoritmos vão nos ignorar ou nos deixar lá no fim da fila, quase invisíveis.

 

Nesse carnaval de possibilidades, o samba enredo fala de um novo deus: onipotente, onisciente e onipresente. O Google está em todos os lugares; ele tudo vê, ele tudo sabe, ele tudo pode. E em um universo tão gigante, digo, infinito, como seduzir um deus digital, para que sejamos dignos de suas bênçãos?  Nesse cenário, no qual as regras ainda não estão bem definidas, e onde tudo pode ser literalmente programado, será uma longa jornada até a “terra prometida”.

 

Essa é uma revolução; não há como negar.

 

Por todos os lados ouve-se que devemos ser criativos, pois nossos empregos serão extintos ou tomados por obedientes máquinas de baixo custo. O bendito algoritmo está à espreita com seus luminosos tentáculos de fibra ótica, sedento por nossos pensamentos. “No que você está pensando?”, ele sussurra. As telas de nossos dispositivos eletrônicos são os novos confessionários. Dizemos, mostramos e revelamos tudo, desde que isso nos traga algum alívio. O algoritmo pode colocar você nos primeiros lugares se seu material tiver relevância ou, é claro, se houver o tilintar de algumas moedas. Ele adora ser louvado com esse tipo de música.

 

Empresas de tecnologia estudam o comportamento das pessoas. Isso é importante para oferecer ferramentas cada vez mais eficazes. Mas, lembre-se que governos e agências de publicidade já fazem isso há séculos. Inclusive nossos pares amorosos, que sempre fazem aquela maldita pergunta, bem no meio de algo interessante: “tá pensando em quê, amor?” Entender o que as pessoas pensam nos dá vantagens. E quanto mais detalhes e força de manipulação dessas informações, mais poder terá o seu dono. Lembre-se que a tecnologia e a economia formam um casalzinho insuportável. Vez ou outra fazem um ménage com a arte, mas a coitadinha sempre fica no vácuo quando o assunto é sobre finanças.

 

Seremos pressionados ao máximo de nossa criatividade para agradar e jogar azeite nas brancas barbas desse deus voraz por informações. Ele exigirá cada vez mais, a fim de poder nos abençoar com as melhores ferramentas, nos dando poderes jamais vistos ou imaginados. Todos os nossos feitos serão subidos para a nuvem, postados, guardados, gravados, estocados e dispostos para que sejam encontrados pelo maior número de pessoas. E quanto mais bem elaborado for, mais visibilidade terá. Quanto mais sofisticado, mais prazer causará em sua “santidade”, pelo simples fato de gerar audiência, e, consequentemente, lucro.

 

Os esforços para dar o nosso melhor criará um oceano cada vez mais denso de informações. Oferendas para saciar o insaciável. Tudo o que jogarmos no altar digital será triturado para se transformar em lógica, a fim de ampliar a forma como somos percebidos. Não vamos parar de entregar nossas ofertas, pois a sensação de ter sido notado é indescritível.

 

Amós Oz, escritor israelense, citado no início desse texto, conta em seu livro E a história começa, como foi a sua primeira aula sobre sexo e reprodução humana. O pré-adolescente recebeu a visita de uma enfermeira que bateu a porta atrás de si, e debulhou o assunto por duas horas ininterruptas. Mas, como dito, se esqueceu de citar que toda aquela odisseia estranha poderia oferecer algum tipo de prazer. No livro ele usa a ilustração para compará-la à leitura dinâmica, o que ele considera terrível pois tira do leitor o real prazer do mergulho profundo na história. Dessa forma, aproveito para pegar emprestada a ideia e me perguntar se um algoritmo será capaz de nos ler em profundidade.

 

A pressa da tecnologia parece estar tirando de nós o fôlego. A capacidade de ir mais fundo e compreender melhor a essência humana. O mesmo algoritmo que vai nos selecionar e privilegiar por sermos profundos, pode nos condenar à superficialidade.

 

Na tentativa de entender o processo criativo humano, talvez esse deus digital não perceba que precisamos de propósitos para exceder expectativas. Que só nos superamos quando nossas emoções estão envolvidas no seu grau máximo. Só damos nosso sangue quando o que chamamos de amor aperta em nossas veias e entramos em fluxo; quando o tempo para e não sentimos o movimento da vida ao nosso redor. Esses são possíveis flashes de prazer, sem os quais a vida perde o sentido.

 

Não sei se isso poderá ser programado em linhas de código. Talvez eu soe um pouco pessimista. Talvez sim, talvez não. Nunca saberemos ao certo.

 

Questionar as coisas sempre soa estranho, e sempre incomoda quem está imerso na cultura que o mantém confortável. Esse é um daqueles momentos insólitos da história humana. No meio dessa correria, precisamos pensar com cautela e tomar melhores decisões, às vezes, sem a ajuda de uma máquina. Deixo você com as palavras de um cara que respeito muito. Pense um pouco com Ralph Waldo Emerson:

 

“Se existe qualquer época em que alguém gostaria de nascer, não seria num tempo de revolução? Essa época, como todos as outras, é excelente se soubermos o que fazer com ela”.

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