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A VÍTIMA DA CULPA

December 18, 2018

 

“As revoluções não são somente femininas, são sobre pessoas. Quando um muda, o outro tem de mudar também. Não dá para fazer revolução sozinha. É preciso contar com todo mundo para que de fato aconteça e é isso que as pessoas têm de ter claro. A cultura tem de mudar inteiramente.”
– Isabella Lessa

 

“Essa é uma roupa de piranha”, disse o rapaz a uma garota, recentemente. Então, só “piranhas” usam roupas curtas? Pelo menos para muitas pessoas, entre elas homens e, infelizmente, mulheres também.

 

Esse texto nasceu numa troca de mensagens no WhatsApp. Mas, como sempre acontece quando converso com essa pessoa (omito o nome a pedido dela), o caldo engrossou e não pude ficar apenas no papo de boteco, imaginando apenas come seria escrever a respeito disso.

 

Sim, eu sou um homem. Cisgênero. Não deveria estar aqui neste palanque, eu sei. Mas, a despeito do que falarão outros homens (e mulheres), escolhi me juntar à luta, pois elas me convenceram de que essa situação estúpida não precisa se estender mais. A vida pode e deve ser melhor se esse apartheid de gêneros acabar, definitivamente. Não somos apenas homens e mulheres, somos pessoas. Isso já seria suficiente!

 

 

 

Muitas mulheres são abordadas e assediadas por estarem usando o que muitos chamam de trajes inapropriados. Alguns países pelo mundo exigem que suas mulheres usem coberturas completas, chamadas de burcas. Umas são tão fechadas que cobrem até os olhos. No caso do Brasil, um país “liberal”, cheio de sol e mar, com infinitas cidades de veraneio e água que não acaba mais, com cachoeiras, lagos e lagoas que estão sempre lotados de mulheres com trajes sumários, adequados para aproveitar o clima, parece que ainda não nos acostumamos a vê-las usando roupas de banho ou indumentárias que revelam “além do permitido” de seus corpos.

 

Depois de 500 anos, ainda nos assustamos com a notória e natural nudez desse país.

 

A roupa é um código, um símbolo que pode dizer algo sobre quem somos. Como tudo na vida. Cada atitude revela um pouco da nossa essência como seres humanos sociais e sociáveis. Mas, nem sempre é assim. Como num texto que pode ser mal interpretado, as pessoas também são mensagens que, no volume, acabam virando discursos truncados, o que confunde mais do que esclarece. Contudo, no final das contas, sempre perde ou paga o pato a parte mais frágil envolvida.

 

A verdade é que a “fragilidade” feminina, construída historicamente, facilita a imposição da violência sobre muitas mulheres que tentam viver livremente, usando as roupas que mais lhe aprouverem. Ainda hoje, as que reagem a cantadas baratas e assédios muitas vezes recebem em troca agressões verbais e, em alguns casos, até físicas.

 

A mensagem do pregador solitário na praça ou de um parlamentar no congresso nem sempre ganham aplausos. Nem sempre agradamos a todos. Quando a redação vale nota zero o ENEM se desfaz, daí o sonho fica para o ano que vem. Versículos bíblicos já foram usados para salvar e condenar muita gente; assim como julgamentos se basearam em argumentos que, hoje, seriam motivos de piada. O significado das coisas muda, e a nossa percepção do mundo também. Umas demoram mais que outras, mas sempre mudam. O tempo tem encurtado a roupa das mulheres, tardiamente, à medida que se emancipam e tomam posse de sua liberdade.

 

Existem pessoas que usam a mesma roupa para emitir mensagens diferentes. Às vezes, sim, tem gente que quer chamar a atenção de potenciais clientes. Nesses casos, a roupa é uma espécie de uniforme, que revela um produto que está à disposição. Em outros casos, a pessoa está apenas sentindo calor, e deseja um mínimo de conforto para o seu próprio corpo. Essa é a única mensagem que está enviando. Precisamos entender que terno e gravata não são garantia de eficiência e honestidade, e nem mesmo que minissaias são ingressos de livre acesso para abordagens sórdidas.

Existe contexto para tudo, e a ignorância vai sempre gerar violência.

 

A roupa como mensagem exige contexto. Precisamos aprender a ler as pessoas, e a respeitar as mensagens alheias. Não existem mulheres vagabundas. Existem mulheres, por exemplo, que se prostituem (e ninguém tem nada a ver com isso), para ganhar o seu sustento, e podem ou não usar um código de vestuário como recurso para ampliar seu alcance. Por outro lado, também existem outras mulheres que apreciam roupas que definem seu estilo e suas preferências, mesmo que sejam modelos curtos, como uma forma de se sentirem confortáveis e livres, de bem consigo mesmas. Simples assim! Ponto.

 

Tudo é mensagem: comida, bebida, vestuário, atitude, carro, música, etc., etc., etc. Se a gente nivelar todo mundo num determinado patamar, seremos muito pobres e injustos. A maioria das mulheres ainda não sabe como lidar com o assédio e a violência. Ainda são vítimas de um processo cultural que, infelizmente, as culpa se tiveram uma atitude “imprópria”. Demagogia pura. A responsabilidade é de quem impõe formatos e insiste em determinar padrões rígidos. Resquícios de uma sociedade medieval, que nos desprepara para lidar com as diferenças, matando, assim, a autonomia que todo ser humano precisa ter e administrar sozinho.

 

Muitos homens podem ver suas esposas como um troféu; às vezes, como uma santa, com quem quase nunca fazem sexo; talvez por uma imposição ideológica ou religiosa, vai saber. Existem outros que são extremamente ativos em casa, mas ainda assim não basta; precisam de mais “presas”, onde quer que elas estejam. Mesmo na presença de suas parceiras, não resistem em se insinuar para outras fêmeas, mesmo em lugares púbicos. A mulher na rua parece estar numa vitrine, à disposição da vontade do cliente que pode pensar e fazer o que bem desejar.

 

Será que esses homens entendem essas mulheres apenas como máquinas de prazer? Talvez, por isso fiquem tão irritados quando são confrontados, e a “máquina” dá defeito. Deve haver tanta frustração acumulada, um peso histórico que permite uma torpe violência contra aquelas que eles ainda julgam ser serviçais submissas, sem voz, incapazes e desautorizadas a reagir. Elas não são máquinas, são pessoas; e pessoas têm emoções; e emoções têm limites.

 

A parte que realmente interessa é que esses seres “frágeis” estão próximos ao seu limite. Agora, estão quebrando muros e tabus; essas damas aprenderam a ler nas entrelinhas para criar seus próprios textos; estão mandando uma nova mensagem, uma que promete reescrever o contexto e mudar a aparência desse momento tardio de uma história que não precisa mais se repetir. Machismo, adeus! O passado é uma roupa que não nos serve mais.

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