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QUILOMBO DOS CRIATIVOS

November 27, 2018

As máquinas ainda não têm consciência. Afinal, nem os humanos têm certeza do que é ser consciente. Há discussões profundas sobre o tema, que hoje congrega profissionais de muitas áreas, desde filosofia até cientistas da computação, passando por psicólogos, engenheiros e biólogos. O Santo Graal que vai definir o início da era há muito esperada, mesmo que mortalmente temida, será o rompimento da barreira entre o “ser” humano e as extensões que foi capaz de criar.

 

Não há certezas sobre quando o homo sapiens começou a sua jornada como ser criativo, elaborando ferramentas, armas, linguagem e técnicas de cultivo, a fim de sobreviver nesse inóspito planeta chamado Terra. A curiosidade de nossos “avós” os fez imaginar novos cenários, e, com isso, experimentar cada vez mais novidades; enquanto fugiam de predadores, furacões, terremotos, tsunamis, desavenças tribais, animais peçonhentos, secas, inundações, etc.

 

 

 

Houve muitos motivos para o despertar do desejo inventivo humano. E como esses motivos não podiam ser previstos e nem mesmo evitados, a única saída era aperfeiçoar cada uma das criações, enquanto aprendíamos com os erros do passado.

De volta ao século XXI, já podemos sentir o bafo quente das máquinas em nosso cangote. O desejo inventivo, a inevitável vontade de constante superação e a imaginação humana criaram um cenário que nos deslumbra e assombra ao mesmo tempo.

 

Quando médicos e advogados são “ameaçados” de perderem seu status sagrado de protetores da vida e da liberdade, podemos, sim, ficar assustados. Se as máquinas prometem assumir essas funções, em breve, nenhuma outra função, por mais criativa que seja, estará livre dos tentáculos digitais, que já governam nossas vidas de muitas formas.

 

A tecnologia, desde a roda e os machados de pedra, sempre foi uma resposta às necessidades de um momento histórico. Mas, a própria história tem registrado um fato que não podemos ignorar. A mesma tecnologia que melhora a vida e conecta as pessoas, também possui seus efeitos colaterais.

 

A automação é um fato. Não podemos evitá-lo. Queremos cada vez mais fazer menos, obtendo o máximo no menor tempo possível. E esse desejo vai tornar todas as funções passíveis de serem automatizadas. Por isso, as máquinas vão se tornar mais poderosas e inteligentes, a fim de suprir esse desejo insaciável. Não resistimos aos encantos de nossas criações.

 

É uma distopia. Um pensamento meio louco. Mas, imagino um futuro no qual seremos obrigados a abandonar as cidades e partir para refúgios naturais, onde poderemos recomeçar nossas vidas e nos reconectar à natureza. Não por vontade própria, mas porque não mais seremos bem-vindos naquele mundo que criamos. A obra prima da criação humana não será para todos. Infelizmente. Nem mesmo para os criativos, que imaginam enfrentar a ameaça das máquinas com um talento único.

 

As máquinas vão superar, sim, a capacidade humana, pelo simples fato de que esse é um desejo humano. Isso já basta. Precisamos de um deus acima de nós, mesmo que seja preciso criar um. Sem uma divindade, um mito ou um poder superior é quase impossível vivermos como seres humanos.

 

Esses quilombos estarão repletos de dissidentes, imigrantes e degredados, em busca de algum tipo de vida. Chamo esses lugares de quilombos porque serão refúgios de personae non gratae. Gente que perdeu o seu valor. Mas, ao contrário dos escravos negros, que eram valiosas propriedades para seus senhores, enquanto “máquinas produtivas”, nossos feitores digitais estarão dispostos a nos pagar a passagem para os quilombos, pois nos tornaremos um peso, já que nem nossa força física e nem mesmo nosso intelecto terão mais nenhuma serventia.

 

Somos vigiados e estudados, 24 horas por dia. Tudo o que fazemos é mapeado. Essas informações são valiosas para empresas que as utilizam para nos ajudar a tomar decisões. No entanto, nos esquecemos de que somos valiosos enquanto nossa força de trabalho for necessária. Quando sistemas e máquinas puderem nos substituir, depois de terem informações suficientes para isso, seremos descartáveis. O último recurso será abandonar o paraíso, em busca de sobrevivência.

 

A roda substituiu o ombro; o motor substituiu a mula; o GPS substituiu os mapas; a eletricidade substituiu a gasolina; em breve, os carros autônomos vão obrigar motoristas de Uber a refazer seus currículos. A tecnologia inclui a mão humana até ser totalmente autônoma. Não sei dizer como isso tudo termina. Seria quase impossível tentar prever. Mas, a sedução da tecnologia é poderosa demais para resistirmos aos seus encantos.

 

Talvez, quando estivermos marchando rumo aos quilombos, a gente não sinta saudades dos tempos de telas sensíveis ao toque e das facilidades do Ifood.Talvez, a gente chegue lá e encontre alguma felicidade. Talvez, depois de algum tempo, a paz e a tranquilidade nos encha o saco e comecemos a construir coisas para facilitar a vida dura no meio do mato. Talvez, ansiosos, vamos criar novas ideias, imaginando ser possível construir um novo mundo, sem cometer os mesmos erros do passado. Talvez…

 

Ficaremos quietinhos, isolados em vales, florestas e montanhas? Ficará a casa grande, opa, quero dizer, a cidade grande tranquila em sua pompa e circunstância? Recursos naturais são limitados e escassos, e todos, sem exceção, precisamos deles; inclusive as máquinas. Quem atacará primeiro? Quem sobreviverá para contar essa história?

 

 

 

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