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O DEMÔNIO DA CRIATIVIDADE

May 29, 2018

“E se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos, é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?”
CARL SAGAN


A depressão é uma doença marginal. Não se fala dela nas rodas de bar, a menos que seja para comentar daquela pessoa que não está presente, pois é sempre alvo de críticas, pois todos acham que a sua “depressão” é desculpa para faltar ao trabalho ou evitar atividades estressantes. Na maioria dos casos, a doença (que é difícil de ser aceita como doença) é tratada como preguiça, charlatanismo e até como reforço de um mau caráter.Pouco se sabe e pouco se fala sobre a depressão. Há preconceito, principalmente ou por se tratar de uma doença mental, que ninguém gosta de reconhecer, ou por não haver um conhecimento público bem esclarecido, que abra espaço para um debate saudável. O pior traço da doença hoje, ainda é o seu status de fato inaceitável.

 

 

 

 

O mundo está ágil. Veloz. O mundo, graças à ciência, não para nunca. Não nos amedronta a noite. Trabalhamos 24 por sete. E sempre é possível fazer um pouco mais. A constante exigência é que não haja pausas. Cada pausa significa prejuízo ou algo que se perde. E isso é inaceitável. Para aliviar a pressão estamos cada vez mais dopados de álcool, de drogas (lícitas e ilícitas), de cacoetes consumistas, de mídias sociais que nos entorpecem com suas mensagens. Precisamos de doses cada vez maiores de felicidade. Cenário perfeito para a depressão explodir.

 

Mas, num mundo que corre, o depressivo, neste contexto, é um problema. É o cara na contramão atrapalhando o tráfego, como na letra de Chico Buarque. Citada em artigo à Revista Época, pela jornalista Eliane Brun, a psicanalista Maria Rita Kehl nos provoca com uma hipótese sobre a qual vale a pena pensar: em seu último livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões (Boitempo, 2009), ela comenta que a depressão, que vem se tornando uma epidemia mundial desde os anos 70, pode ser a versão contemporânea do mal-estar na civilização. Para ela, a depressão teria algo a dizer sobre a forma como estamos vivendo e sobre os valores da nossa época. Para além da patologia, a doença pode ser vista também como um sintoma social.

 

As máquinas, graças à ciência, tornaram-se hiper sofisticadas. Estão quase tendo vida própria. Houve um tempo em que dava orgulho ser um operário. Alguém que operava máquinas. A figura humana representava o ápice pois tinham dominado o poder das máquinas. Revoluções políticas se valeram da imagem do homem e da mulher, fortes, prontos para assumir seus lugares em indústrias, que prometiam libertá-los da pobreza. Hoje, as máquinas estão cada vez mais autônomas, e prometem assumir o controle total, muito em breve. Parece não haver lugar para o ser humano no futuro. Quando olhamos para frente, só é possível ver máquinas. Prestes a se ver expulsos do paraíso, os seres humanos estão cada vez mais desprovidos de seu propósito. Cada vez mais desconectados do próprio mundo que ajudaram a criar. Diante disso, como não se perder, e não acabar mergulhando em estados depressivos?

Fizemos tanto amor com a tecnologia que nos tornamos dependentes de seus favores. Só sentimos prazer se for possível apertar um botão ou deslizar uma tela iluminada. A Revolução Industrial nos despiu de nossa humanidade e nos violentou com tamanha força, que não entendemos o mundo se não for por métodos de repetição, lineares, compreensivos e que redundem em resultados previsíveis.

 

Ao assistir ao documentário Innsaei: o Poder da Intuição, de 2016, percebi como estou eu mesmo dopado com tantas mentiras sobre a vida e sobre o meu potencial como ser humano, em como me deixei ser aprisionado pelas facilidades da tecnocracia. O filme conta a história da busca da alma, da ciência, da natureza e da criatividade. InnSæi leva-nos por uma viagem mundial que busca compreender a arte de como o ser humano se conecta com a sua essência.

 

A antiga palavra islandesa “Innsæi” tem múltiplos significados. Pode significar “o mar de dentro”, da natureza sem fronteiras do nosso mundo interior, em constante movimento de visão, sentimentos e imaginação além das palavras. Pode sugerir “ver o interior”, conhecer a si mesmo bem o suficiente para ser capaz de se colocar no lugar de outras pessoas. Ou pode ser interpretado como “ver de dentro para fora”, que é ter uma forte bússola interna para navegar em nosso mundo em constante mudança. Isso tudo potencializa uma habilidade intrinsicamente humana: a intuição.

 

Os números da depressão no mundo são assustadores. Os transtornos mentais custam à economia global US $ 1 trilhão em perda de produtividade por ano, sendo a depressão a principal causa de problemas de saúde e incapacidade, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015. Enquanto isso, 260 milhões de pessoas sofrem de transtornos de ansiedade. Muitos vivem com as duas condições. Não dá para ignorar isso.

Há uma solução possível através do diálogo aberto, da expressão artística, da busca por significado nas coisas simples, na natureza selvagem e em seus mínimos detalhes, nos relacionamentos sinceros, na dedicação ao bem comum, na desaceleração, na interação saudável e na ruptura das fronteiras que dividem todos os seres humanos, sem exceção, e a beleza de suas ideias.

 

Como bem disse Steven Pinker, um autor que gosto muito, “esta história não pertence a nenhuma tribo, mas a toda humanidade, a qualquer criatura senciente* com o poder da razão e o desejo de persistir em seu ser, pois requer apenas as convicções de que a vida é melhor que a morte, saúde é melhor que doença, a abundância é melhor que a necessidade, a liberdade é melhor que a coerção, a felicidade é melhor que o sofrimento, e o conhecimento é melhor que a ignorância e a superstição”.

 

As máquinas não serão assombradas por demônios. As máquinas são o resultado da nossa própria busca pela eternidade, pelo divino que não conseguimos explicar, um jeito de eliminar nossas falhas e limitações. Nos enfeitiçamos tanto por elas que perdemos o controle de nossas criações. Se não acordarmos desse transe, e nos dermos conta dos riscos que corremos, dificilmente escaparemos de um triste final.

O demônio da criatividade persiste em seu trabalho, assombrando nossas mentes em busca de alguma reação.

 

Nossas escolhas podem salvar o mundo, ou encher o sombrio abismo do esquecimento, com todas as mentes que poderiam fazer a diferença, mas nunca encontram um motivo, um propósito real para ter uma voz, para ser protagonistas de suas próprias histórias, pois haviam lhe drenado a sua sensibilidade, capaz de gerar a intuição necessária para se tornarem únicos, seres impossíveis de serem copiados. Singulares!

 

* Senciente: adjetivo de dois gêneros – que percebe pelos sentidos; que recebe impressões.

 

 

 

 

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