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“Se a subjetividade não tivesse surgido […] a criatividade não teria florescido.”
– António Damásio

 

Subjetividade. Esse é o substantivo mais valioso da história humana. Sem ele, nenhum adjetivo teria o menor valor, o menor sentido. Subjetivo não é o que está subentendido. Subjetivo é o que nos confere individualidade. É o relatório completo da nossa capacidade de sermos únicos, quando revelamos a nossa opinião sobre algo. Se não temos o que dizer ou se a nossa resposta é uma repetição da conveniente norma a tiracolo, somos a alma do clichê, a bela chancela do grito contido da inviabilidade, do insustentável poder de ser nada mais que a descartável figurinha repetida, num surrado baralho sujo. Discurso duro? Não. Subjetivo.

 

 

Anta. Não sei se Kubrick conhecia o significado da expressão, mas em 2001 ele criou a odisseia que mexeu com a mente de toda uma geração, e até hoje incomoda muitos inquietos sujeitos. Em seu longa 2001 UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, Stanley mostra o mamífero disputando espaço com um bando de símios num longínquo e árido deserto. A “anta” está lá, entre dois grupos de humanoides e um negro monolito. Em certo momento, depois de tocar a sua subjetividade, um dos símios se descobre existindo. Experimentar a textura da fria pedra negra levou o ser de sua simples e desconhecida existência a um inusitado nível de percepção. Na cena em que o osso é jogado ao ar, como rito de passagem para a consciência plena, quando toma conhecimento da necessidade de defender seu EU, a violência invade o resto de seu corpo. O osso não é mais um brinquedo, senão um sinal. Um alarme. Uma marca definitiva. O leme de uma nova viagem.

 

Uma vez descoberta a existência, tomamos consciência de que é mister defende-la até às últimas consequências. Instinto? Não. Subjetividade. Somos viciados no ato de existir, plenamente. HAL 9000, artificial inteligência que controlava a missão espacial no filme de Stanley Kubrick, viu-se na mesma situação. A subjetividade nos rouba o chão. Uma vez conscientes da realidade, uma vez experimentada a percepção do mundo, nos vemos sugados para dentro do furacão da subjetividade, onde somos nós e a necessidade de não deixar de existir. Tênue linha. O subjetivo nos rouba o pensamento, continuamente. Pensamos, incessantemente. Depois de jogado ao alto o osso, já não somos os mesmos. Torna-se violento o mundo, esse e todos os outros que formos capazes de imaginar. Uma vez descoberta e desperta a mente, reconhecida a camada capaz de perceber a realidade, somos feitos reféns da eterna pergunta: o que decidir agora?

 

Sem a subjetividade não haveria história, diria Damásio. E a história é aquilo que você já sabe, todos os tipos de possibilidades, já que o único ator possível nesse palco é o ser humano, único dono da capacidade de se perceber como ser vivente, como matéria que existe temporariamente. Talvez por isso queira tanto ser eterno enquanto dure.

 

Escrevi esse texto porque tenho medo dos efeitos da subjetividade. Receio que ela tenha sido roubada ou colocada na torre mais alto de algum castelo. Receio que as pessoas tenham perdido a capacidade de se reconhecer como seres reais. A violência ainda está aí, como camada robusta e arenosa para todos que duvidarem. Mas, ela, a violência, tornou-se tão paradigmática que deixamos a existência no piloto automático. Sim. Não dirigimos mais nossas vidas. HAL 9000 Tinha tanta certeza de sua importância que a negou aos outros tripulantes da nave (spoiler atrasado). Esse exagero existencial nos consome hoje. “Maquinamos” quase que literalmente os nossos atos, desprezando o alheio e não nos importamos com as consequências do que fazemos, desde que a última palavra seja a nossa. Do contrário, “reset”, “delete”, “off”.

 

Será que a Legião Urbana tinha razão? “Tudo é dor. E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”, cantou Renato Russo. Fugimos da dor infringindo, mesmo que inconscientemente, dor alheia, para afastar qualquer possibilidade de desprazer ou risco à nossa individualidade. Atiramos à esmo, de longe ou à queima roupa, morrendo de medo de sermos vistos de verdade. A violência, branda ou caótica, subliminar ou cortante, é o nosso escudo contra o mundo que, ironicamente, desejamos tanto conhecer.

 

“O amor nunca seria amor, apenas sexo. A amizade seria apenas uma cooperação conveniente”, profetiza Damásio, o neurocientista português. E olha que ele diz isso como consequência da consciência e sua amada subjetividade. E estamos conscientes disso? Retóricas à parte, fico a pensar (se é que isso seja possível) sobre o que é real, e o que é subjetividade. Somos conscientes? Subjetivos? Não tenho certeza. Talvez essa ausência de respostas concretas torne as coisas tão subjetivas. Talvez a incerteza seja a prova que valide a violência da busca, da defesa. Talvez não saber o que é o certo nos faça querer encontrar algum tipo de paz, algum caminho que nos permita encontrar uma janela para nós mesmos e, de lá, poder ver e sentir o resto do mundo. Talvez.

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